Fomos então para Veneza. Que cidade única. De longe é a cidade mais diferente que estive, principalmente devido a evidente logística. Apesar de sempre ouvir sobre os canais eu achava que a cidade era normal, possuindo alguns rios a mais. Não, literalmente resolveram construir a cidade em cima do mar. O que levou uma população a fazer isso em primeiro lugar foi a coisa que mais me deixou curioso no início, claro. Você não fica atoa num domingo e de repente diz: Poxa, nada pra fazer... bora criar uma cidade inteira em cima do mar?
Mas a cidade não é "flutuante" ou em alto mar. O que ocorre é mais parecido com um amontoado de pedras e concreto sobre uma região "pantanosa", que coincide de ser também um mar. Pelo que vi, a cidade teve sua fundação durante a queda do império romano (beeem velha então) quando bandos estavam fugindo da capital Roma. O lugar onde a cidade se iniciou, chamado lagoon, é como um mar interno muito raso, quase um pantanal. Imagine algo como o piscinão de Ramos, uma lagoa gigantesca do lado do mar e feita de água salgada. Porém essa "lagoa" na verdade é parte do mar, já que existem vários canais grandes o suficiente ligando ela com o mar. Os refugiados viram uma boa oportunidade de se salvar dos saques nesse pântano. Construindo casas de paliçadas sobre as regiões mais firmes do pântano salgado eles ficavam seguros das incursões terrestres. Mas também havia outra vantagem, o pântano é muito raso mesmo, com profundidade de cerca de 50 centímetros, o que impede que grandes embarcações naveguem por la. Isso manteve a população a salvo de saques piratas também, permitindo a cidade crescer e se expandir sobre o pântano.
Esse crescimento foi bem desorganizado e vemos isso em toda a estrutura da cidade. O processo em sí de construção é bem complicado, envolvendo primeiro a fixação de estacas enormes de madeira no leito do rio, sobre essas paliçadas (ainda submersas) de madeira são criadas para suportarem então os alicerces de rochas sobre os quais as casas serão construídas. É quase como a construção de ilhas artificiais, porém com as ilhas sobre essas paliçadas submersas de madeira.
Isso levou a cidade a ter enormes particularidades. As vias principais de tráfego entre uma região e outra são os canais onde viagem balsas, gôndolas e "ônibus aquáticos". Outros canais mais estreitos cruzam a cidade toda permitindo táxis aquáticos e balsas levarem passageiros. Porém as "ilhas" em que as casas ficam também são ligadas por estreitas pontes (isso bem recentemente, até pouco a maior parte do transporte era mandatoriamente pela água). E nessas ilhas temos becos extremamente estreitos que os pedestres andam entre as construções. Não existem ruas de fato, somente os becos estreitos e as praças como áreas mais abertas.
Esse tipo de arquitetura gera uma quantidade enorme de peculiaridades. Desde o fato óbvio de não haver nenhum veículo de terra, até os problemas relacionados a transporte de mercadorias como abastecimento de alimentos a mercados, entrega de cartas, transporte de móveis e objetos grandes, etc. Devido a isso a população da cidade em sua grande maioria mora no continente, somente trabalhando na ilha (inclusive a ilha em sí fica praticamente deserta a noite, somente com alguns restaurantes e hotéis funcionando).
Por algum motivo curioso a cidade não fede a peixe e água de mar... Além de ser interessante ver a quantidade de regulamentações que devem existir para manter a cidade "bonita" para o turismo. É proibido nadar nos canais e você ve somente barcos de modelos bem específicos sempre no serviço relacionado a turistas. Não cheguei a ver nenhum barco pequeno de pescadores, ou qualquer outro tipo bem comum em cidades costeiras, somente os relacionados a transporte. Também não parecem haver muitos peixes nos canais dentro da cidade, apesar de terem dito que durante o verão é comum ver lulas por lá.
Outro fenômeno curioso, e bem único, é a temporada chamada água alta que ocorre quase anualmente por la. O nível do mar sobe o suficiente para literalmente inundar diversas partes da cidade e casas durante dias. O curioso é que a cidade continua funcionando normalmente e isso inclusive atrai mais turistas. Os restaurantes e hotéis mantem o funcionamento com uma camada de até 10 cm de água do mar cobrindo o chão e todos os serviços se mantém com a diferença que todos usam botas emborrachadas.
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| Visão de fora da estação de trem |
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| Só passarelas estreitas ao lado dos canais. |
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| E ruas estreitas entre as ilhas |
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| sim |
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| A maioria dos canais não possui passarelas e as casas tem "portas" que dão para a água |
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| Nos canais mais largos da para ver melhor as casas como aglomerados de ilhas |
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| Murano, a ilha do vidro |
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| Bizarro notar que várias das esculturas expostas na rua são originais de períodos romanos |
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| Barco El Doge. Much wow |
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| A região toda do lagoon é como um grande pântano com poucas áreas acima do nível da água. |